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CUDA Rust: a NVIDIA abriu a última muralha por dentro

28 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

O CUDA está migrando para o Rust. Eu previ isso faz tempo, meus alunos sabem. Há uns três meses eu disse para o Jorge, meu aluno lá de Florianópolis, que o Rust ia tomar conta de tudo. Mas a NVIDIA abrir mão do controle do CUDA? Essa eu não esperava tão cedo.

Eu desenvolvi com CUDA em C++ na época do doutorado, e por mais de 15 anos foi assim que se conversou com uma GPU da NVIDIA. CUDA é C++. Agora, em outubro de 2026, a NVIDIA publicou um repositório oficial chamado CUDA Rust, e você escreve o kernel nativo da GPU em Rust. Se você acha que é só mais um binding de linguagem, fica aqui comigo, porque a história é maior.

A última muralha

Eu chamo a GPU de última muralha. Para entender por quê, veja quantas muralhas já caíram antes dela.

Quando Microsoft e Google abriram os dados internos de segurança, o número foi o mesmo dos dois lados: quase 70% das vulnerabilidades graves vinham de erros de memória. Buffer overflow, use-after-free, data race. Não é erro de lógica, não é erro de regra de negócio. É o programador gerenciando memória na mão e errando, o que é inevitável em C e C++. Eu dei aula dessas duas linguagens no Instituto Federal e sei do que estou falando.

O Rust não deixa isso acontecer. O compilador prova, em tempo de compilação, que cada acesso à memória é válido. Se não provar, não compila. E sem garbage collector, então não paga em desempenho. Rust é um C com cinto de segurança.

Tem linguagem linda no papel aos montes. A diferença é que o Rust saiu do papel e entrou na infraestrutura que sustenta a IA hoje:

  • A Amazon escreveu o Firecracker em Rust, a microVM que roda cada função Lambda do planeta.
  • A Cloudflare trocou o Nginx pelo Pingora, em Rust. Bilhões de requisições por dia passam por esse código.
  • A Microsoft colocou Rust dentro do kernel do Windows, no binário win32kbase_rs, rodando no Windows 11 em uma das superfícies de ataque mais históricas que existem.
  • A Meta reescreveu o sistema de build, o Buck2, em Rust.
  • O Google colocou Rust no Android e publicou os dados: conforme a proporção de código Rust subia, a proporção de vulnerabilidades de memória caía.

E o momento em que o debate acabou foi em dezembro de 2025, em Tóquio, na reunião dos mantenedores do kernel do Linux. Depois de anos de briga, o Rust deixou de ser experimental e virou linguagem oficial do kernel, ao lado de C e assembly. Quando o Linux aceita, acabou. Não tem volta.

Mais um sinal, esse para quem constrói IA: em junho de 2026 a OpenAI entrou na Rust Foundation como membro platina, o nível mais alto, ao lado de Amazon, Google, Microsoft, Huawei e ARM. Isso não é post de hobby. É orçamento em cima de uma linguagem.

Então repara: sistema operacional caiu para o Rust, nuvem caiu, navegador caiu, rede caiu, kernel caiu. Só faltava a placa de vídeo. Toda a computação que importa hoje em IA acontece dentro de uma GPU, e dentro dela a língua era CUDA via C++. Existia um projeto comunitário para usar Rust ali, mas estava meio abandonado e na prática ninguém usava.

O CUDA Rust oficial

A NVIDIA resolveu o assunto ela mesma. O CUDA Rust é oficial, é código aberto e está no GitHub da empresa, com dois jeitos de programar.

O primeiro é o jeito clássico do CUDA, o modelo SIMT, no projeto cuda-oxide: você controla cada thread, cada bloco, cada pedaço de memória na mão. É o nível mais baixo, do jeito que a galera do CUDA está acostumada.

O segundo é o modelo Tile, no cutile-rs, e é o que a NVIDIA recomenda. Em vez de pensar em thread, você descreve a operação em blocos de dados e o compilador decide como distribuir o trabalho. Isso ajuda muito na organização da memória, que em CUDA sempre foi a parte mais chata.

Nos dois casos vale a regra do Rust: o que vai rodar na placa de vídeo passa pelo compilador antes, e não tem como escapar da verificação. O mesmo compilador que te impede de corromper a memória na CPU agora te impede de corromper a memória da GPU. Para treino de IA e para o nosso querido fine-tuning, isso ajuda demais.

Você pode estar pensando: com tanta checagem, fica mais lento que C++? Não. Mas a pergunta certa é outra: quantas horas você já perdeu caçando bug de memória em CUDA? Eu perdi muitas. É esse tempo que o Rust devolve para o desenvolvedor.

O aviso

Eu não vendo cigarro para ninguém, então vai o aviso: não coloque isso em produção hoje. A própria NVIDIA chama de projeto de pesquisa em estágio inicial. Precisa de Linux e de uma placa da geração Ampere para cima, uma A100 ou uma RTX série 30. O que a NVIDIA está fazendo é abrir a porta e pedir para a comunidade começar.

Mas presta atenção no que isso significa. A empresa que domina o hardware de IA no mundo, que construiu a maior vantagem competitiva da história da computação em cima de uma linguagem, decidiu que o futuro do CUDA não é só C++. Ela olhou para o mesmo caminho de Linux, Microsoft, Amazon, Cloudflare e OpenAI, e entrou nele. A última muralha não caiu por invasão. Foi aberta por dentro.

Se eu tivesse que escolher uma linguagem hoje, escolheria Rust. E eu perguntei isso ao ChatGPT e ao Claude. Os dois escolheram Rust também.

Preciso reescrever meu sistema na mão?

Aí você pensa: tenho um sistema inteiro em Python, em C++. Vou ter que reescrever tudo na mão? Não. Ninguém reescreve sistema na mão em 2026. Reescrever hoje é um problema de especificação, não de escrita. Quando você recupera a spec completa do sistema, o que ele faz e as regras que obedece, a linguagem de destino vira um detalhe.

É exatamente isso que o Reversa faz, meu framework de código aberto de engenharia reversa para agentes de IA. Ele não descompila binário, deixa isso bem claro. Ele lê o seu código, extrai a especificação, documenta o comportamento real, e a partir daí você gera o sistema na linguagem nova que escolher. Rust incluso.

Eu já estou criando sistemas assim, com Rust como base: aponto para o repositório, os agentes mapeiam o sistema, e sai uma base em Rust que respeita o comportamento original. O Reversa já passou de 1700 estrelas no GitHub, tem artigo científico publicado e está em uso no Banco do Brasil, no Bradesco, na Petrobras e no governo de Goiás.

E com o compilador do Rust validando cada linha do sistema migrado, o custo de migração, que sempre foi a desculpa para não fazer, a tal curva de aprendizado, deixou de existir. Lembra do PHP que tomou ataque no mundo inteiro semana passada? É esse tipo de legado que dá para migrar.

Fiquem de olho no Rust. Essa transição começou e vale acompanhar para onde o mundo da computação vai. Quer discutir isso comigo? Entra no grupo de WhatsApp do canal.