Por que tudo muda tão rápido na IA
Hoje eu quero falar sobre mudança.
Os meus alunos sempre me dizem a mesma coisa: Sandeco, inteligência artificial é uma loucura, todo dia aparece uma coisa nova, tudo muda muito rápido.
E é verdade. Eu não vou dizer que não é.
Mas deixa eu te contar uma coisa que talvez mude o seu jeito de olhar para isso: mudança não é um privilégio da inteligência artificial. Mudança é uma característica da computação.
Deixa eu te contar o que eu vi em 36 anos
Eu trabalho com computação há 36 anos. Nesse tempo, eu vi a nossa área virar do avesso várias vezes, e cada uma dessas viradas parecia, na época, a maior de todas.
No começo era tudo centralizado. Computadores enormes, caros, trancados numa sala com ar-condicionado, distantes da maioria das pessoas. Você não usava o computador, você mandava um trabalho para ele e esperava.
Aí veio o computador pessoal, e isso foi uma mudança enorme. A máquina saiu daquele ambiente fechado e foi parar na mesa das pessoas. Quem tinha construído a carreira inteira em volta do computador central levou um susto.
Depois vieram as interfaces gráficas e o mouse. Uma forma completamente nova de conversar com a máquina, que fez muita gente boa torcer o nariz e dizer que aquilo era coisa para quem não sabia digitar comando.
Vieram as redes, e o computador deixou de ser uma ilha.
E então veio a internet. De repente não era mais sobre computadores, era sobre conexão. A pergunta deixou de ser o que a sua máquina faz e virou com quem ela fala.
Depois a web mudou tudo de novo: a forma de criar, de distribuir, de trabalhar, de vender.
E aí o computador saiu da nossa mesa e foi parar no nosso bolso, com os smartphones. Não foi só o tamanho que mudou, foi o tempo: a computação passou a estar disponível em qualquer instante do dia.
Depois a nuvem mudou mais uma vez a maneira de construir e entregar sistema. Servidor deixou de ser uma coisa que você compra e passou a ser uma coisa que você liga.
E agora a gente está vivendo mais uma dessas viradas, com a inteligência artificial.

Olha esse desenho com calma. Cada bloco ali foi, no seu momento, a coisa que parecia impossível de acompanhar. E cada um deles hoje é tão comum que a gente nem lembra que um dia foi novidade.
O que de fato mudou foi a velocidade
Aí você me pergunta: mas Sandeco, hoje não está mais rápido?
Está. E aqui eu concordo inteiramente com quem reclama.
A velocidade de hoje é impressionante. Às vezes uma tecnologia que parecia incrível há seis meses hoje já parece comum, e em alguns casos já foi substituída por outra. Você começa a estudar uma ferramenta e ela muda de versão no meio do seu estudo.

Repare que o que encurtou foi o intervalo, não a natureza da coisa. Antes a gente tinha uma década para digerir uma virada. Depois passou a ter alguns anos. Agora tem alguns meses.
Isso é cansativo, e eu não vou romantizar. Mas a mudança em si não é nova para quem está aqui há tempo suficiente. O que é novo é a frequência.
O problema não é a mudança, é a resistência
Agora eu quero chegar no ponto que mais importa.
O problema nunca foi a mudança acontecer. O problema é quando a gente fica resistente a ela.
Porque a mudança não espera a gente concordar. Ela não pede licença, não abre uma consulta pública, não liga para a sua opinião. Ela simplesmente acontece.
E se você resiste por tempo demais, acontece uma coisa silenciosa e perigosa: você vai ficando desalinhado com o momento atual. Não é que você fica burro, longe disso. É que o seu conhecimento continua válido para um mundo que já não é mais o mundo lá fora.

Eu já vi isso acontecer com gente muito boa. Profissional excelente, com domínio profundo de uma tecnologia, que decidiu que aquela era a forma certa de fazer as coisas e parou ali. Não foi a falta de competência que atrapalhou, foi a certeza.
Por isso, quem vive nessa área aprende cedo três coisas: aprender de novo, experimentar sem medo de parecer iniciante, e soltar algumas certezas pelo caminho.
Essa terceira é a mais difícil. Soltar certeza dói, porque cada certeza dessas custou anos para ser construída.
A habilidade que precisa ficar
Então, se você está se aproximando da computação agora, chegando pela porta da inteligência artificial, entenda uma coisa: a mudança é regra na nossa área. Não é exceção, não é fase, não é a IA sendo exagerada.
E daí vem a conclusão que eu acho mais importante de tudo.
Talvez a habilidade mais valiosa na computação não seja dominar a ferramenta da moda de hoje. Seja continuar sendo capaz de aprender a próxima.

Porque ela vai chegar. E depois dela, outra. E depois outra.
Eu não sei qual vai ser a próxima virada, e desconfio de quem diz que sabe. Mas eu sei que ela vem, e sei que quem estiver com o músculo de aprender em dia vai atravessar ela numa boa.
Na computação, as tecnologias passam. A nossa capacidade de aprender é o que precisa ficar.
Se você quer conversar sobre isso comigo, eu estou todo dia no grupo de WhatsApp do canal, e lá tem bastante gente que está exatamente nesse momento de recomeço.