Vale a pena investir anos em computação hoje?
Vale a pena ainda estudar computação? Ciência da computação, sistemas de informação, engenharia de software, inteligência artificial? Eu percebo que muitos dos meus alunos estão com medo do futuro, e o medo é justamente do futuro da computação.
Eu gravei esse vídeo saindo do quente da aula, porque eu precisava passar essa energia para você também. E a resposta é: vale muito a pena. Deixa eu justificar.
A computação é ciência meio
Primeira coisa que você precisa entender: a computação não é uma ciência fim. Medicina, direito, psicologia, marketing, contabilidade, educação, economia, essas são ciências fim. A computação é ciência meio. Ela existe para apoiar as outras, para dar solução para que as outras áreas evoluam. E isso nunca vai acabar.
Você pode pensar: mas a IA veio para acabar com os empregos da computação. Aí eu te pergunto: quem criou a inteligência artificial? Foi a computação. A área que criou a tecnologia que está impactando o mundo não acabou porque a tecnologia chegou. Pelo contrário. A gente está sendo liberado do trabalho mecânico que nos prendia.
Você não foi treinado para ser pedreiro
Deixa eu te contar uma história. Aos 17 anos, por tradição de família, eu fiz três anos e meio de engenharia civil antes de ir de vez para a computação. E tinha uma disciplina de resistência e análise de materiais que eu adorei. O professor te leva para mexer com areia, brita, cimento, ferro. Você vira concreto na mão, faz aquele vulcãozinho, enche um cilindro, coloca na máquina para estourar e vê se bateu com a especificação. A gente construiu mini casas, colocou tijolinho, aprendeu a assentar telha.
Mas a coisa que eu mais gostei foi a fala do professor no último dia. Ele disse: vocês mexeram com todo material possível da construção civil, mas eu quero dizer uma coisa. Vocês não estão sendo treinados para serem pedreiros. Vocês estão sendo treinados para serem engenheiros, mentes pensantes. Daqui para frente, provavelmente, vocês nunca mais vão mexer com esse material.
Eu trouxe isso comigo para a computação. Eu não estou sendo treinado para ser pedreiro da computação. Eu sou engenheiro de software. E eu digo isso para os meus alunos: eu não estou ensinando vocês para serem programadores. Curso de lógica de programação faz isso muito bem. Na faculdade de computação você está sendo treinado para ser a mente pensante, a pessoa que traz à luz a ideia que resolve a necessidade de um cliente.
E vou deixar claro, porque sei que a palavra pega: eu tenho um respeito enorme por você que é desenvolvedor e está vivendo essa angústia. Ela é legítima. Meu avô foi um dos mestres de obras mais famosos de Natal, onde eu nasci. Eu não estou menosprezando ninguém. Estou tentando te mostrar outro caminho.
Nunca tivemos indústria de software
Agora a segunda analogia. A gente sempre falou em indústria de software, fábrica de software. Nunca tivemos. O software sempre foi manual demais, sempre foi manufatura. E a maioria da galera de TI, uns 90%, faz construção de software, não engenharia de software. Não sabe processo, design patterns, arquitetura em camadas, artefatos de arquitetura. Só escreve código.
Pensa numa indústria de carro. Você imagina aqueles robôs enormes soldando as peças. Mas para o carro ser soldado por robô, alguém teve que pensar o carro antes. Alguém trouxe aquilo do mundo das ideias, no sentido de Platão, para o nosso mundo. O engenheiro é o pontífice entre esses dois mundos.
A inteligência artificial é o robozinho que solda o carro. Pela primeira vez a gente tem máquina na linha de montagem do software, e sem máquina não é indústria, é manufatura. Então agora, efetivamente, nasce a indústria de software. E o que acontece quando um produto se industrializa? Cai de preço, mais gente tem acesso, e quem produz em série com qualidade ganha mais, não menos.
No meu livro de engenharia de software eu digo que o vibe code morreu. Não porque eu sou contra IA, eu estou há 16 anos pesquisando IA e 36 na computação. É porque código escrito sem engenharia quebra em algum momento. Se você está no controle do processo, entrega rápido e com qualidade. Se não está, entrega rápido e quebra.
Olha quem está correndo para a computação
Na Universidade Federal de Goiás, os dois cursos mais concorridos são da computação: primeiro inteligência artificial, segundo engenharia de software. Medicina vem em terceiro. Dois anos seguidos assim. No Instituto Federal, o curso mais concorrido é sistemas de informação. A pós mais concorrida, nas duas instituições, é a de inteligência artificial.
As pessoas de fora estão correndo para a computação. Por que a gente, de dentro, fica com medo de que ela acabe? Não faz sentido nenhum.
OpenAI e Anthropic não são Big Techs ainda, são startups desafiando as Big Techs. De onde vão nascer as startups que vão desafiar essas? Da computação. As próximas tecnologias que vão impactar o mundo não pararam na IA, e vão nascer do mesmo lugar.
O desafio
Se você é da computação e só escreve código, sem processo, sem técnica de engenharia de software, eu te desafio a começar a estudar essa área agora. É para esse caminho que a gente está indo: a bola de ferro de escrever código na mão o tempo todo está se dissipando, e o que sobra é o engenheiro pensante. É exatamente sobre isso o meu livro de engenharia de software com IA.
Eu trabalho com otimização de redes neurais. Sou um otimista profissional. Pode ser que outras pessoas sejam mais pessimistas, mas a minha visão é essa: a computação é o presente e também é o futuro. Não tenha medo.