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OpenAI Dev Day: um corte disfarçado de lançamento

29 de setembro de 2026 · 6 min de leitura

Acabei de assistir ao OpenAI Dev Day e já vou te dizendo logo de cara: não gostei. Não gostei muito do que vi.

A impressão que eu tenho é que a OpenAI parou lá em 2022, 2023, quando chegou o ChatGPT 3.5. Aquilo sim foi inovação. De lá para cá, a empresa não consegue mais trazer nada que mexa de verdade com o mercado. E inovar é isso, trazer disrupção, algo que tem impacto real. Essencialmente é só isso.

O Dots e o clipe do Office

A grande estrela do evento, que o próprio Sam Altman subiu para anunciar, foi o tal do Dots. São agentes personalizados que ficam ligados 24 horas por dia. Você dá uma responsabilidade para ele e ele fica trabalhando sozinho, num computador próprio na nuvem, usando os mesmos plugins que você já conectou. Dá para falar com ele por mensagem de texto e até por ligação.

Nos exemplos que mostraram, o Dots atualiza a apresentação da reunião, abre pull request para corrigir bug e migra um app que usava uma API antiga. Ele já está disponível para os planos Pro, Business e Enterprise, e tem também uma versão de especialistas para empresas, numa parceria com a Microsoft. Tudo ainda muito incipiente.

Agora repara no jeito que o Dots conversa. Para mim, é a cara daquele clipezinho do Office. Você lembra dele? Ficava ali no canto da tela te olhando e perguntando o que você queria fazer agora. Muito chato, cara. Muito chato. A gente não precisava desse troço de volta.

Feito para o leigo, não para quem trabalha

E isso não é detalhe de interface. Toda vez que a OpenAI faz um lançamento grande, ele vem voltado para o usuário final, quase leigo no assunto, e não para a galera que usa IA para trabalhar dentro de empresa. Ela está ficando muito parecida com a Microsoft, querendo fazer produto para o consumidor.

O Spaces, que também saiu no evento, vai na mesma linha: um espaço de trabalho dentro do ChatGPT. E olha, tem coisa ali de que eu gosto, e faço questão de dizer. Eu uso bastante o Work. Quando estou indo dar aula no Instituto Federal ou na Universidade Federal e preciso mexer nos meus slides do Mira, ou fazer um slide novo, eu vou conversando com o ChatGPT dentro do carro e sai um slide bom. Fica legal para caramba. Só que isso não é novidade. É um recurso bacana, não é inovação.

Tem mais um detalhe, que o pessoal dos grupos do canal levantou: a estrutura do Dev Day é muito parecida com a do Google I/O. Nem no formato do evento os caras conseguiram inovar.

Do outro lado, quem cria o que todo mundo usa

Agora faz uma listinha comigo do que a Anthropic colocou no mundo.

O MCP foi criado pela Anthropic e hoje todo mundo usa, em tudo quanto é lugar. Para quem desenvolve e quer criar aplicação do zero, é muito útil. Eu até escrevi um livro sobre MCP, mas o ponto aqui é a tecnologia, não o livro. Depois vieram as agent skills, que hoje estão espalhadas para tudo que é lado. E os modelos de programação decolaram: o Opus cresceu demais da versão 4.7 para a 4.8, e agora o 5.5 está muito bom. Veio o Fable, veio o Fable 5.1, veio o próprio Mythos.

A minha leitura é que a Anthropic, por estar voltada para o mundo empresarial, precisa inovar o máximo possível. A OpenAI fica olhando para o usuário final e se contenta em dar outra demão de tinta no que já existe.

Sempre correndo atrás

Teve mais coisa no evento. O harness do Codex virou open source, e o Codex finalmente chegou ao celular. Isso o pessoal pedia para caramba, e a Anthropic já tinha feito com o controle remoto do Claude Code: você começa a construir uma aplicação na sua máquina e continua conversando com ela pelo celular, de onde estiver, tocando o desenvolvimento. Funciona muito bem. Legal que a OpenAI lançou, mas demorou demais, e a ideia não foi dela.

Mesma coisa com a notícia de que a OpenAI está lançando um modelo no estilo do Jev. Se você leu o texto sobre o Jev, sabe que ele é da TypeSafe. O Jev teve que aparecer primeiro para a OpenAI sair correndo atrás.

É essa a questão. A OpenAI está ficando para trás em criar novidade, está sempre correndo atrás. E quando cria alguma coisa própria, é o que eu chamo de melhoramento do cocô. É o clipe do Office de roupa nova.

O Pro de US$ 200 que voltou pela metade

Agora vem a parte que pegou de verdade, e foi onde choveu crítica. A OpenAI lançou um Pro de US$ 500, com acesso exclusivo ao Ultra Fast, e anunciou que ia reabrir o Pro de US$ 200. Guarda essa parte, porque ela é importante.

Reabrir o de US$ 200 parece boa notícia. Não é. Os planos de US$ 20 e de US$ 100 não mudaram nada. Mas o de US$ 200, que era 20x, voltou como 10x. O 20x agora é o de US$ 500. Você tá vendo o problema aqui? Você paga mais e recebe menos. A imprensa já noticiou, o The Next Web entre outros, dizendo que a OpenAI nerfou o plano e cortou tudo pela metade.

Um comentário do Marco Devolder, lá dos grupos do canal, me fez pensar, e eu concordo com ele. A tal bolha da inteligência artificial é, no fundo, um problema financeiro. Então talvez isso já seja um indício de falta de fôlego financeiro da OpenAI com os servidores. É daí que nascem essas contas diferenciadas, onde se paga mais e se ganha menos.

E repara que eu estou fazendo aqui a mesma crítica que fiz à Anthropic quando ela liberou o Fable com 50% do limite. Você paga pelo Fable completão e só pode usar metade dele. Isso é muito ruim para o marketing da coisa toda, não importa de que empresa venha.

Um anúncio que é corte

Resumindo: lançaram coisinhas legais, o Dots, o Spaces, o Ultra Fast, o Codex na nuvem e no celular. Mas, no fim do dia, o que ficou foi um corte disfarçado de lançamento. Achei muito, muito, muito fraco. Posso estar errado, mas acho que dava para ter sido bem mais.

E antes que alguém me coloque num time: eu não defendo nenhuma dessas empresas. Tem a galera que defende a OpenAI e tem a galera que defende a Anthropic. Você não pode ser apaixonado por tecnologia específica. Eu quero é que elas briguem entre si e o preço caia para a gente.

Concorda? Discorda? Chega lá no grupo de WhatsApp do canal, que foi de lá que saíram boas observações deste texto.